” BIO-VIRTUAL”,(1981_1984) ciclo de perfomances, Cooperativa Árvore / Porto

Perfomance Entrevista de Nuno Canelas a Silvestre Pestana no âmbito do Mestrado em Arte Contemporânea da U. Católica – Escola das Artes do Porto em 2009 N.C.

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O inicio do seu já longo trabalho remonta para os anos 60, esteve então ligado à produção de poesia concreta e visual portuguesa associada ao Movimento da Poesia Experimental dos anos 60 PO-EX. Como vê essa experiência?

SP – A década de 60 apresenta-se hoje como um dos dois momentos de ruptura cultural e social muito importantes do século XX. Este fenómeno de profunda mudança social é para muitos, reconhecível nas imensas alterações que ocorreram ao longo da década de 30. Assistiu-se durante a década de 60 nos países fortemente industrializados a um optimismo socialmente generalizado, tendo por base o êxito conseguido com a reconstrução urbana e a prosperidade social crescente. Paradoxalmente, dentro deste contexto eufórico de uma renovada cidadania, mantiveram-se em funcionamento regimes autoritários que se posicionaram fortemente pelo continuado controlo das relações sociais, através da imposição em diversos países, de regimes de uma intensa e rígida estratificação social, como o que aconteceu durante este período em Portugal e Espanha. Todo este crescente optimismo social reconhecível na década de 60, encontrou-se fortemente dependente do desenvolvimento suportado pela técnociência com a comercialização, entre outras do transístor e pelo novo paradigma instaurado pelo projecto Apolo. Todo este imenso e emergente optimismo foi intensamente divulgado e promovido através dos novos meios de comunicação de massas (o disco em vinil, rádio e pela TV). Enquanto poeta, tornou-se desde logo, claro para mim, confrontado com os monopólios rigidamente controlados na época pelo Estado Português das emissões da Rádio e da Televisão, quanto era importante, e porque não (?) indispensável a necessidade de se Re-Escrever a totalidade do “Discurso” vigente. Era então consensual, esta sentida necessidade de se reescrever a totalidade do discurso auto-referente estadual, sonolento e militarmente dirigido. Várias foram as proposições levadas acabo por vários grupos artísticos, então activos socialmente, destacando-se no entanto uma forte incidência de tal propósito na produção da época realizada pelos poetas relacionados com as práticas da poética experimental. Foi com este propósito que realizei em 1969, o poema objecto “Construir o objecto”, publicado na edição da ” idra 2”. Este poema objecto, que vem naturalmente na linha de outros poemas propostos anteriormente por outros poetas, associa o acto fabricante da poemática como acto potencializado(r).  Neste POEMA ACÇÃO, o leitor enquanto agente, é convidado a soprar o balão vermelho apresentado, sobre o qual se encontra impressa a letra maiúscula H e a proceder à sua subsequente destruição. Este ACTO, este fazer, este exercício da poésis enquanto exercício re fundador da polis (ou se quisermos este brincar com coisas sérias), remete e questiona o então discurso vigente promovido pelos dois blocos, então em confronto, com base na mútua chantagem da ameaça nuclear planetária. Depois foram os cinco anos de exílio na Suécia. Daí solicitaram-me a colaborar na então primeira edição da Antologia da Poesia Concreta em Portugal, Documenta Poética 1, edição Assírio & Alvim, Abril 1973. O Poema “4 verdades essenciais”, Stockholm 1972, aí publicado, é bem o resultado da interiorização do discurso publicitário envolvente tornando-se desse modo, uma resposta poético sintética a esse mesmo discurso, numa constante problematização do “Ser e do Estar Poético”. Após dez anos de ausência, com o meu regresso ao Porto, participei em 1976 com dois “Fotopoemas- Povo/Ovo e Ovo/Voo” na colectiva da representação portuguesa de Poesia Experimental à Bienal de São Paulo / Brasil. Mais tarde em 1979, tive a oportunidade de poder dispor de três salas na Cooperativa Árvore na exposição ” Ilhas Desertas”, patrocinada pela Fundação Calouste Gulbenkian. Numa das salas mais pequenas, apresentei os meus “Grafopoemas-Pautas” realizados em Londres, enquanto que em outra sala, apresentei os diversos poemas com base em radiografias intervencionadas referentes ao ciclo “Radioideologias” em doze caixas de luz eléctrica. Por fim, e não menos importante, apresentei na terceira sala, a instalação “Tecnolabirinto” poema concebido e realizado enquanto entidade totalmente tridimensional á escala da sala maior de que dispunha a Galeria. Este poema/instalação “Tecnolabirinto” dispunha de dois conjuntos fotográficos, sendo umdestes um tríptico, encimando estes o início e termino do percurso labiríntico, proposto ao leitor, pontuado por dezasseis caixas de luz intermitente a que tinham sido atribuídas morfemas identitários de posicionamento (x,y,z). Foram também realizadas duas “performances” nos dois dias seguintes realizadas por mim, em conjunto com o actor de teatro Estraviz. Assim era proposto ao leitor, uma virtualidade cénica poeticamente carregada de cor, som e imagem (vídeo) em que era proposto ao leitor a experiência de este poder percorrer, perder-se e reencontrar-se enquanto activo produtor de sentido. A recepção desta minha instalação em 1979 no contexto da cidade do Porto, foi como é natural nestes casos, a de uma aparente indiferença, embora para a poder produzir  tenha beneficiado do apoio parcial fornecido pela Fundação Calouste Gulbenkian, o que na altura se revelava de uma chancela com algum significado. Por um lado, era desconhecida esta poética que recorria à instalação e se propunha enquanto poética de nível 3D (na cidade, era quase desconhecida a designação do termo instalação). Ao mesmo tempo, a academia através da faculdade de letras, tão desajustada desde sempre, negava tudo o pudesse remeter para fora do mundo do livresco, patrocinado pelas poderosas editoras e glorificado pelos seus poetas regionais. Neste contexto, o mesmo posicionamento foi assumido pelos regentes das Belas Artes da cidade, que por essa altura também se recusavam poder ceder terreno às imergentes artes visuais. O reconhecimento da operacionalidade deste meu extenso poema, só adveio, quando integrado na PO:EX em 1980 na cidade de  Lisboa. Este meu poema, integrado num conjunto diferenciado mas sucedâneo de propostas da poética 3D, serviu então de elemento publicitário promocional a esta exposição nos canais da RTP, devido creio eu, à sua forte tónica visual. Depois como sempre acontece aqui neste pais …foi o adormecer da bela poética, até que em 1999, a Fundação de Serralves na exposição “PO-EX: O Experimentalismo Português entre 1964 a 1980”, recuperou através de uma renovada atenção crítica, esta poética, entre as mais diversas práticas artísticas realizadas ao longo das décadas de 60 e 70. É interessante verificar, no momento presente, uma certa regressão do poético às práticas anteriores à emergência do digital…embora, agora, já se disponha no país de Fóruns Institucionalizados de Poesia como os Centros dedicados aos Poetas e a sua paralela importância da Poesia nas relações da cultura, etc…

N.C. Situa mais todo esse trabalho no campo da arte ou da literatura? Ou nos dois? Com mais peso de um sobre o outro?

SP – Desde o primeiro momento da minha produção artística/poética de 1969, que tenho vindo a realizar um contínuo exercício de questionamento sobre a razão ou razões de uma expressão artística que corresponda ao meu ser/estar no mundo. A este extraordinário acontecer do ser que Sou! Este Ter que não se esgota na busca incessante de Querer Ser! Como? Por onde? Ainda? Assim, a pergunta chave da estratégia seguida, ou o reflexo do percurso conseguido, responde e só,  à estreita dimensão de poder Ser. Neste tipo de produção artística, de que sou estruturalmente informado, muito pouco fica para uma produção maciça de produtos culturais, que possam vir a ser redimensionados pelas emergentes industrias da cultura de massas. O poema 3D, passa mal na “passarelle” da poética sentimentalista e consumível para férias….o que é natural, devido à qualidade da sua natureza e à operatória que pressupõem. Já agora, talvez seja também pertinente referir, que nesse ano de 1969, a minha obra escultórica “ Aros 2” foi seleccionada para exposição de Arte do Banco Português do Atlântico em Lisboa. Nesta obra “ Aros 2” encontramos reunidos dois materiais que na altura eram pouco recorrentes na produção artística nacional; o recurso a materiais insufláveis conjugados com uma placa acrílica colorida. A obra “ Aros 2”, pretendeu  desde logo, assumir-se como uma possível resposta, a uma questão formal, sobre os modos  que poderia revestir uma escultórica da segunda metade do século vinte. Mais tarde e durante a minha estadia em Estocolmo, realizei no Outono de 1971, uma exposição a que chamei de “KUNST” numa galeria japonesa situada na parte velha da cidade, em que apresentei cerca de 10 obras em placa acrílica em que cada uma destas incorporam os mais diversos tipos de insufláveis, desenvolvendo deste modo, mesmo na Suécia uma continuidade a este tipo de problematização formal sobre o fazer escultórico. Na cidade de Estocolmo o clima criativo geral era fortemente impulsionado pelo grande número de refugiados vindos dos mais diversos países com base nas mais variadas motivações (Vietname, Angola, Brasil e por último o Chile). Realizei por essa altura, coincidindo com a presença do poeta experimental António Aragão em Estocolmo a duas “intervenções” públicas como então se chamavam a estas a(r)titudes intensamente promovidas pelos artistas de influência “situacionista” e sobre as quais ainda tenho comigo cerca de vinte diapositivos até aqui nunca divulgados em Portugal.

N.C. Também realizou várias performances, qual a relação que estabelece entre estas duas criações? Têm obviamente pontos em comum, Quais?

SP – Claro. A divulgação social da televisão junto de variados públicos internacionais tornou desde logo claro que esta se sobrepunha a todos os papeis tradicionalmente atribuídos às diversas tecnologias até então conhecidas na produção das imagens. Aparentemente, as tecnologias tradicionais de representação souberam resistir-lhe, pois acentuaram uma incessante busca da valorização da hiper definição das imagens. Conheceram-se desde então fenómenos vinculados ao hiper realismo e à activa valorização do desenho que acentue a mestria formal do artista em relação aos produtos fotográficos. Mas a dinâmica televisiva, acentua, devido à sua própria natureza técnica, uma outra vertente, a da socialização total dos indivíduos através da sua personalização. Fenómeno curioso, que valoriza a  silhueta ou se quisermos o esquiço dos mais diversos posicionamentos dos papeis sociais a que cada um de nós é confrontado e activamente forçado a desempenhar. Com a televisão todos nós somos convidados a nos reconhecermos como actores. Este intenso e continuado apelo à personificação é inerente à televisão. Por isso, não é demais, reconhecer que a “performance” tornou-se na produção actual da arte contemporânea internacional num atributo valorativo e existencial. Todas estas acções, desempenhos ou “performances”, remetem sempre para um resíduo efémero que o sustenha, quer este seja gráfico, fotográfico ou videográfico. Realizei ao longo dos últimos vinte e cinco anos e por diversas vezes, sempre integrado em eventos culturais e artísticos as mais variadas intervenções públicas, que incluem as praças de Viana do Castelo, Vila Nova de Cerveira, Porto, Torres Vedras, Cascais e Sintra. Assim, enquanto “performer” construo, actuo, crio a minha singularidade e depois vou à vida… É devido a este posicionamento assumido pelos seus agentes que a “performance” se diferencia tanto, enquanto género, do teatro ou do entretimento ritualizado dos cafés concerto.

N.C. – Em que plano entra o conceito de virtual na sua obra e na produção de performances ou poemas visuais?

SP – É interessante que me leve a debruçar sobre esta questão tão decisiva. Talvez desde sempre a probabilidade do Ser se centre pois ao pragmatismo do Ter. Tal é a força desta tensão, que se tornou necessária e útil no desenvolvimento intencional das mais diversas relações e expectativas que forjassem um equilíbrio instável entre estas distintas aquisições. Quanto a mim é aqui que centro o meu desejo e ardor de agir, proclamar, configurar e refazer o meu (nosso) mundo. Lembro-me muitas vezes da forma intensa que desde muito cedo me marcou a figura atenta do “ ESCRIBA”. Desta estátua egípcia retenho a sua posição sentada com as costas erectas, o brilho curioso do olhar e a silhueta da mão direita que está pronta para fabricar pela rapidez do gesto, o desenho legível do testemunho ou mesmo descrever o fugaz sonho. Retomei por diversas vezes a este tema do escriba ao longo dos meus “Poético Actos”,. Certamente onde tal referência é mais poderosa e reconhecível, será na série dos três fotopoemas que publiquei com o nome de “A literatura informacional” in  Poemografias,1985, ed. Ulmeiro. Neste tríptico, recorro às estratégias alegóricas dos cartoons para melhor enquadrar o meu corpo nu enquanto território disponibilizado ao Ser. Para melhor acentuar tal efeito recorri neste fotopoema às transparências dos acetatos para acentuar os espaços gráfico-visuais do texto. Aqui neste espaço fotográfico, remeto o leitor para a feliz ocorrência de se poder reconhecer vivo, isto é, proponho-lhe a vertigem do virtual poemático. De regresso à problemática do virtual e da sua reconhecível abordagem ao longo da minha obra, creio ser pertinente, aqui referir que compilei ainda na edição de Poemografias. as três versões dos meus “Computer Poems” para os computadores ZX81 e Spectrum. Nesta publicação os três poemas para computador, apresentam-se documentados por imagens de diversos momentos do seu percurso programático tendo a seu lado a listagem do programa que lhe dá origem. Durante vinte anos, encontrei-me impossibilitado de aceder aos meus “Computer Poems”, dada a fragilidade dos equipamentos originais que entretanto tinham avariado. Até que, acerca de quatro anos um amigo me forneceu o endereço de um site na net que disponibilizava diversos Emuladores destes programas. Deste modo os meus “Computer Poems” despertaram do seu desajustado sono tecnológico. Mais tarde, através da divulgação dos meus “Computer Poems” em diversos seminários da especialidade pelo académico e poeta digital brasileiro Doutor Jorge Luiz António fui convidado a licenciar a reprodução de um dos meus “Computer  Poems  para a sua publicação no livro “ Phorehistic Digital Poetry: an archaeology of forms, 1959-1995”, da autoria do Doutor C.T. Funkhouser da New Jersey Institute of Tecnology, editado pela University of Alabana Prés em Junho de 2007. Assim, é com agrado que vejo reconhecido o meu trabalho pioneiro nesta área a nível internacional. Presentemente encontro-me a liderar um projecto de participação artística digital à distância com nome de “ Projecto Galeria Pública: Outdoorcerveira Arte Digital”. Este projecto teve início durante a XII Bienal Internacional de Cerveira 2005, tendo recebido desde então, as mais diversas participações de artistas internacionais, em que se valoriza a postura de “Restituir à Polis o discurso do Artístico”. Recorre-se para isso, ao envio pelos artistas de ficheiros digitais pela Net com a matriz das suas obras. Estas matrizes são posteriormente impressas em lonas que são afixadas em dois painéis disponibilizados para tal efeito nas ruas de Vila Nova de Cerveira. Assim estas obras artísticas apresentadas nos outdoors, permanecem como obras efémeras durante três a quatro semanas até que o vento e a chuva ou o sol as degradem, tornando-se então necessário proceder à sua substituição por outro conjunto artístico enviado por outro autor. Dada à inevitável importância das novas potencialidades manifestas da tecnologia impulsionadora da WEB2, desde o dia 15 de Janeiro, que se encontra disponível na Praça de Lisboa Portugal (99,8,27), uma versão virtual 3D do painel outdoorcerveira no mundo virtual da Second Life. Esta emersão no mundo digital 3D da Second Life, permitiu já, termos contactado e recebido a colaboração de artistas que se representam através dos seus avatares. Presentemente apresentamos as obras de três artistas/avatares em duas localizações: a obra cinética do avatar basco Elros Tuominen, Lisboa Portugal (99,8,27), E as obras de duas artistas avatares na Jade Isles. A obra da avatar tunisiana Sunflower Aichi e a obra da avatar austríaca Magix Merlim podem ser visitadas no seguinte endereço da Jades Isles ( 28,48,22).

NC –  Não detendo o carácter único de obra de arte, as imagens/poema geradas no computador podem ser fixadas  por impressão em papel ou por fotografia, desaparecendo a diferenciação material entre  original  e cópia  já que a imagem/poema é não material. Que relação se pode então estabelecer entre a poesia experimental e a gravura por exemplo?

SP – Perante uma pergunta tão diversificada e ampla como esta …..sou forçado a ler e reler a sua questão. Quando procedi entre 1981 e 1983 à produção dos primeiros poemas em língua portuguesa para o primeiro computador doméstico divulgado na Europa o ZX81, estava a inaugurar um procedimento, que tinha já alguma tradição anterior de poemas realizados por diversos poetas através de grandes equipamentos eletrónicos ou mesmo já especulativamente formulados como hipótese de trabalho por muitos outros poetas e no que se refere ao caso português, atenda-se a esquiços ou mesmo a previsões realizadas durante a década de 60 por Herbert Helder ou Melo e Castro. A atitude artística experimental é um procedimento metodológico com semelhanças ao utilizado pelo método científico, mas do qual difere nas suas preposições, o primeiro pretende exercitar o processo demonstrativo ou factual enquanto que a atitude experimental aplicada à arte serve para delimitar e propor linhas de acção exemplares. Aqui encontramos plenamente formulado o binómimo da arte versus ciência, enquanto actividades sistemáticas produtoras de sentido. De regresso à minha problemática anterior, retenho, que a poética eléctro-digital ou se quisermos a poesia gerada por computador, apresenta na sua maturidade através e sempre pela animação virtual do texto. Preocupado com esta problemática, inspirei-me desde muito cedo na beleza  e na emoção que sempre experimentei ao ler/ver  as fichas técnicas dos filmes e mais tarde dos programas TV. Ao deliciar-me e ao valorizar esses escassos momentos fílmicos, retinha, que não era só o acesso à informação residual transmitida pelos estandardizados copy write  mas, justamente a experiência única de saber que testemunhava a futuridade animada dos textos literários. Para os poetas, o problema aqui encontrado, reside sempre, na clivagem vincada  pela fonética ocidental de submeter a escrita à produção linear regida pela fónica ou se quisermos, dito  de outro modo, deu-se especial atenção ao privilégio do ouvido sobre a visão, o que resultou naturalmente na inerente simplificação formal do abecedário latino. Presentemente, outras e não menos complexas sociedades regem-se, no entanto pelo recurso a uma forte tónica visual dominantemente ideogramática. É bem visível na cultura ocidental, o desenvolvimento,  importância e reconhecimento cada vez maior à sinaletica nas relações urbanas, num compromisso cada vez maior entre a valorização dos dois sensores de cognição fortemente ampliados nas sociedades áudio visuais : a visão e audição. Deste modo, o poema visual é tido, ainda, por muitos como uma novidade ou se quisermos uma linha de produção literária que não vingou na sua forma particular enquanto poética de massas na nossa cultura ocidental. No presente estádio da produção literária de forte componente livresca, tal parecerá indiscutível e majoritário, mas se atendermos à presente e acelerada socialização do vídeo e à transmissão ubíqua das mensagens eletrónicas, promovidas pelos mais recentes desenvolvimentos dos telemóveis da terceira geração, não será, tomado como  especulação desnecessária ou onírica, supor a utilização em massa pelos futuros utilizadores das mensagens eletrónicas, do uso simultâneo de imagens, textos e som. Cremos mesmo poder predizer que a abundância do video nos mobil vai alterar em muito a produção artística actual, como nunca tinha conseguido fazer o prodominio do cinematográfico. Vamos assistir a uma crescente desmaterialização da obra de arte, como testemunhamos com o advento do cinema em relação ao corpo teatral da época. A desmaterialização da obra de arte não será exercida em nenhum caso pela ausência da obra. O que se observará será um crescente caminhar na direção do leve, segundo Melo e Castro.

© Nuno Canelas © Silvestre Pestana

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in: Círculo de Artes Plásticas de Coimbra Ap o k a t a s t a s i s

(por António Barros)

Uma Homenagem a Julian Beck.

Entenda-se a teoria da apokatastasis (restauração), como a mais elevadamente defendida pelo exegeta alexandrino, também filósofo e teólogo Orígenes. Tem esta teoria as suas raízes tanto na filosofia grega e judaico-cristã, assim como na literatura, e tornou-se numa grande doutrina teológico-soteriológica na patrística. Doutrina que interessou a múltiplos pensadores e filósofos, até mesmo Agostinho que, na sua fase anti-maniqueísta, apoiou a teoria da restauração universal, legado a quem o fundador, em 1947 com Judith Malina, do Living Theatre, o pintor, poeta e actor Julian Beck (Nova York, 31 de Maio, 1925 – Nova York, 14 de Setembro, 1985) trabalhou no seu teatro das vanguardas.

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“Apokatastasis” titulou, assim, a homenagem prestada no Círculo de Artes Plásticas, CAPC, em Coimbra, a Julian Beck no dia da sua morte, em 1985. António Barros, João Torres, José Louro, José Troya, Rui Mendes e Silvestre Pestana, elementos das comunidades artísticas do CAPC, do Artitude:01/ Projectos & Progestos e do Living Theatre (no caso de Troya) exploraram conjugadamente nesta evocação à Cultura de Beck, diferentes textualidades no elogio do teatro das mudanças sociais onde a exaltação da estética, arte e política, traçou o fim das fronteiras entre arte e vida.

Na fachada do Edifício do CAPC, na Castro Matoso 18, em Coimbra, símbolos diversos, desde a fotografia revisitando “As Sete Meditações…” conjugada aos textos ‘concretisantes’ de António Barros, enunciavam-se, nas janelas em ciclorama, numa ‘oratória’ sobre os princípios fundamentais da existência e a “restauração” da condição de ser. Neste cenário urbano, a esculturalidade comportamental e as suas advogadas performatividades, surgiam com Louro, Torres e Mendes, enquanto Silvestre Pestana evocava, a partir da iconografia do I Ching, o deslumbre das narrativas da Luz e seu Sentido, sempre sobre uma convulsiva arte dos desempenhos do corpo. O ambiente sonoro envolvente registava as palavras de Troya que, numa participação a distância, fabricava o texto enunciando a morte de Beck. Tudo numa moldura de pundonor, e com um brio que só as transcendencias na razão do seu cerimonial convocam.

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Na foto

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“Apokatastasis Homenagem prestada no Círculo de Artes Plásticas, CAPC, em Coimbra, a Julian Beck no dia da sua morte, 31 de Maio de 1985. ( nas fotos: José Louro, Rui Mendes e Silvestre Pestana).

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outros: C.A.P.C. ” Sonho / Grito “, instalação e performance

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" Sonho / Grito", instalaçao e perfomance no C.A.P.C.<br /> @silvestre pestana

” Sonho / Grito”, instalaçao e perfomance no C.A.P.C.
@silvestre pestana

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> Documentos: ” BioVirtual “, ( 1984) instalação + video de 11 a 22 Julho na Cooperativa Árvore_Porto ” BioVirtual “, ( 1984) fotos de convite frente e verso (fac-símile).

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frente web    versoweb 1Corpo perfomace pequeno  corpo ” Corpo – Performance ” 4 / 18 fotos in ” BioVirtual “, ( 1984) . © silvestre pestana

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" BioVirtual" ,in: catalogo IV Bienal Cerveira 1984, © silvestre pestana

” BioVirtual” ,in: catalogo IV Bienal Cerveira 1984,
© silvestre pestana

Convite Bio-Virtual Galeria Leo

Convite ” Bio-Virtual ” Galeria Leo, Lisboa, 1985                                © silvestre pestana

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Performance  no Auditório da Cooperativa Árvore_Porto.

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Materiais:

8 lâmpadas fluorescentes cores, branco, amarelo e magenta; televisor e projecção  independente apresentando o poema digital ” Computer Poetry to Julian Beck ” (1983) para Spectrum tendo como fundo o Poema “SALÁRIO “, tipografia a preto e vermelho sobre folha estendida.  © silvestre pestana

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Outros.

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” PO:EX.80 “, (1980) na Galeria Nacional de Arte Moderna. Belém. Lisboa.

Participação na ” PO:EX.8O “, ( Poesia Experimental Portuguesa )

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” PO:EX.80 “, (1980)

*Vista geral da instalação (2 fotos) de Silvestre Pestana:

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Materiais:

4 fotos de 100 x 100 x 100 cm, B & W;

17 caixas de luz intermitente,interligadas de dimensões variáveis ” TECNO-LABIRINTO”; 

12 caixas de luz com radiografias intervencionadas;

Música registo em fita magnética: Jorge Lima Barreto.

 © silvestre pestana

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